Em um texto que escrevi a algum tempo eu tinha afirmado que a aura da obra de arte que Walter Benjamin dizia que a era de reprodutibilidade técnica tinha posto em crise havia na verdade se dilatado a ponto de se ter hoje uma relação híbrida de uma espécie de “teologia econômica” da arte, sendo que o objeto de culto é instituído pelo mercado ou elite econômica e/ou cultural. Por exemplo, temos o caso das fotografias que registram obras como performances, land-art, ações, etc. e que depois, com a assinatura do artista passam a valores exorbitantes. São casos como do artista francês Michel Comte. Ele vendeu em abril, num leilão da Christie's, uma fotografia de 1993, cuja modelo é Carla Bruni, atual primeira-dama da França por 91 mil dólares. Aí lembramos do que disse o velho Benjamin no seu célebre A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica diz: “Da chapa fotográfica pode-se tirar um grande numero de provas; seria absurdo indagar qual delas é a autêntica. Mas, desde que o critério de autenticidade não é mais aplicável à produção artística, toda a função da arte fica subvertida. Em lugar de se basear sobre o ritual, ela se funda, doravante, sobre uma outra forma de praxis: a política”.
O absurdo de se pagar tal preço por uma imagem que pode ser repetida milhares de sem se definir o original está explicado na economia às avessas do campo artístico, que Pierre Bourdieu analisa em As regras da arte. A estratégia consiste em uma espécie de capital simbólico onde se coloca a assinatura do artista, o interesse que desperta o objeto focado e a ilusão de originalidade, revertidos em capital econômico.
A mágica se constrói em torno da assinatura do artista, do atestado de originalidade (mesmo que o “original” não seja tão original assim), e é a mesma que se estabelece com os produtos e suas marcas. Seria preciso discutir que tipo de ações o artista hoje precisa tomar para preservar sua autonomia (caso queira, claro) em relação ao mercado, sem se sentir ameaçado por reconhecimentos desvairados do mercado de arte.
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